terça-feira, 18 de outubro de 2011

PATRÍCIA LOURIVAL ACIOLI

   Nos anos oitenta, quando se falava em Nova Iguaçu o que vinha na mente de qualquer pessoa era a violência associada à miséria. No entanto, não era bem assim que a cidade tocava minha sensibilidade.           
    Durante mais de quatro anos eu fiz meu trajeto do bairro da Zona Norte do Rio onde eu morava para Nova Iguaçu, dirigindo por, aproximadamente, quarenta minutos e gostava da viagem, assim como da cidade e do meu trabalho. Considero a advocacia exercida pelo Defensor Público muito prazerosa, pois o profissional que a exerce está liberto da comercialização de sua atuação. É o estado que lhe paga e, em contrapartida tem a obrigação de defender os interesses de seus assistidos com o maior empenho. Pelo menos é o que se espera de um membro da Defensoria Pública. Durante muitos anos fui Defensor Público no Estado do Rio de Janeiro e mesmo aposentado, não cortei o cordão umbilical com minha instituição, e quando vou à Cidade Maravilhosa, compareço à Defensoria Pública ou à Associação dos Defensores e continuo convivendo com meus colegas, antigos ou novos.
     Minha atuação na Defensoria Pública, desde o início foi direcionada para a área criminal e em várias comarcas do interior onde atuei, aos poucos, fui me enfronhando e me entusiasmando com as defesas perante o Tribunal do Júri. Assim, quando assumi a Defensoria de uma vara criminal especializada em júri, justamente na principal comarca da Baixada Fluminense, fiquei muito feliz, pois concretizava um sonho de realização profissional dentro da instituição que eu amava, e que amo, mesmo na inatividade há vários anos.
    Na década de oitenta, o município de Nova Iguaçu era bem maior do que atualmente e sua população devia orçar a casa de um milhão e meio de habitantes. Vale esclarecer que, posteriormente, vários de seus distritos, tais como Belford Roxo, Engenheiro Pedreira, Queimados e Mesquita, todos com grande densidade populacional, emanciparam-se e como decorrência, novas comarcas foram criadas, evidentemente, desafogando e muito, os serviços afetos à Justiça. Se não me falha a memória, foi em 1988 que se apresentou em Nova Iguaçu , designada para atuar nas varas do júri da comarca, a defensora pública recém nomeada, Patrícia Lourival Acioli. Era extremamente jovem, bonita, sendo que a decantada vaidade feminina não fazia parte de sua personalidade, pois trajava-se com simplicidade. Tinha um sorriso meigo, seu cartão de visita.
    Em Nova Iguaçu havia apenas cinco varas criminais, sendo duas, a quarta e a quinta, especializadas no Tribunal do Júri, muito pouco para uma população tão grande. Eu e o então jovem Defensor Público Fábio Uchoa, hoje juiz titular do Primeiro Tribunal do Júri e coincidentemente um dos que substituíram Patrícia Acioli em São Gonçalo , enfrentávamos a tribuna do Júri quase todas as semanas e Patrícia esmerava-se no atendimento às partes. E foi justamente nesse atendimento que ela mostrou sua face emotiva e ao mesmo tempo combativa. Vivenciava o sofrimento daquelas pessoas humildes que procuravam a Defensoria, muitas delas vítimas da arbitrariedade de maus policiais e aí é que despontou sua personalidade guerreira.
        Patrícia ficou uns três ou quatro anos como defensora pública e, aprovada em concurso para a magistratura iniciou nova carreira. Não tenho dúvida, de que a experiência de sua trajetória na Defensoria, uma instituição tradicionalmente defensora dos direitos humanos, pautou sua atuação na magistratura. No Poder Judiciário preferiu trabalhar em varas criminais e não se afastou daquilo que fazia na Defensoria Pública, o atendimento às partes. Tal como na sua instituição anterior as portas de seu gabinete estavam sempre abertas às pessoas humildes, muitas vítimas ou parentes de vítimas do crime organizado, de milicianos e de policiais assassinos e arbitrários. Há anos que exercia com destemor sua magistratura em São Gonçalo , uma cidade da região metropolitana do Rio de Janeiro, colada em Niterói, infestada de favelas, com uma população superior a um milhão de habitantes e com um grande índice de pobreza e de criminalidade. Há muito poderia optar por outra comarca, outra vara mais tranqüila, mesmo porque há tempos que recebia ameaças de morte, mas, apesar do perigo, seu espírito justiceiro falava mais alto.
     A última vez que vi Patrícia foi na cerimônia de sua posse na Magistratura. Sentia-se feliz, pois iniciava uma nova trajetória no ramo do direito, mas não escondia uma ponta de tristeza por sair de uma instituição onde deixava tantas amizades e tantos projetos inacabados. Seu sorriso meigo e bonito ficou gravado em minha memória e jamais será esquecido. O sorriso de uma guerreira, de uma juíza que pagou com sua vida o direito de fazer a verdadeira justiça, de combater a maior das impunidades que é a adstrita à chamada banda podre que, embora integrada por uma minoria de maus policiais, infelizmente, existe.

domingo, 3 de julho de 2011

O Tempo Dirá

Há escritores férteis em suas produções literárias, que passam a vida inteira escrevendo, mas o árduo labor não encontra receptividade no público, na crítica ou nos meios de comunicação. Outros, com escassa produção, às vezes com um único livro alcançam incrível popularidade, tornando-se importante referência entre os grandes de sua época. O escritor norte-americano J.B.Salinger é um desses, graças ao seu único romance, “O Apanhador no Campo de Centeio”, publicado em primeira edição no início da década de 50. Este livro, desde o impacto de seu lançamento, vem conquistando muitos leitores e seu autor passou a ser reconhecido internacionalmente como um dos grandes nomes da literatura de ficção norte-americana do século passado.
   O interessante na obra de Salinger é que o tema abordado é dos mais banais. Trata-se de uma narrativa feita na primeira pessoa por um adolescente problemático, que após ser expulso da escola por ter sido reprovado em quase todas as matérias, passa alguns dias em Nova Iorque , antes de retornar a casa. No entanto, a linguagem própria dos jovens, a sexualidade tratada sem disfarces, a despreocupação com o futuro, a crítica ao comportamento e o modo de pensar, principalmente dos mais velhos, a rebeldia, e outras facetas da juventude, fizeram do livro um ícone de influências para várias gerações.
     No início da década de 50 eu também era um adolescente. Não li o livro de Salinger naquela época, nem sofri qualquer influência relacionada à mencionada obra, mas, hoje, procurando fazer uma auto-análise, ou mesmo, uma autocrítica, creio que em certos aspectos de minha adolescência, como na de muitos e muitos outros jovens de várias gerações, podem-se identificar alguns descritos no referido personagem. No entanto, há dois, um que hoje eu classificaria como negativo e outro como altamente positivo, em que vislumbro no adolescente que eu fui, situações muito próximas das enfocadas no jovem personagem de Salinger.
     O jovem narrado na mencionada obra tinha verdadeira ojeriza por estudar qualquer matéria que não fosse o Inglês, o que lhe custou muitas reprovações escolares. É a famosa vadiagem que também me pegou e me custou um atraso nos estudos de, pelo menos, uns quatro anos. É o aspecto que considero o mais negativo de toda minha adolescência.
     Já o positivo, tal qual o personagem do referido livro, é que desde criança, adquiri o hábito de ler e ler muito. Iniciei pelos infantis de Monteiro Lobato e mais tarde, mesmo a par de minha malandragem escolar, comecei a me interessar por romances. Li e me emocionei com escritores brasileiros do romantismo, tais como José de Alencar, principalmente no “O Guarani”. Vibrei e muito com os de Machado de Assis e Eça de Queiroz. Nessa época passei também a ler os romances de Jorge Amado, principalmente os focados na influência marxista, tais como, os três volumes de “Subterrâneos da Liberdade” e “O Cavaleiro da Esperança”, além de “Mar Morto”, “ Capitães de Areia”, “Seara Vermelha”, “Terras do Sem Fim” e outros, passando também por romancistas alienígenas, em especial o da moda daqueles tempos, A.J.Cronin. Assim, acabei tornando-me um leitor compulsivo, hábito que me acompanha pela vida inteira.
    Passada a fase da ojeriza aos estudos, sem dúvida, o hábito da leitura tornou minha formação acadêmica e profissional muito mais fácil e prazerosa.Analisando o comportamento e as preferências da juventude atual, sem dúvida, a leitura de livros encontra sérios concorrentes nos meios de comunicação e nos avanços da tecnologia. A Internet, onde tudo se encontra já mastigado, seja para o bem ou para o mal, principalmente no seio da juventude, vem progressivamente substituindo o milenar hábito da leitura de livros. Inquestionável que tal preferência oferece aspectos dos mais positivos, principalmente quanto à gama imensa de informações disponibilizadas com um simples toque num teclado.No entanto, será que num futuro próximo ou mesmo remoto, o livro, este amigo inseparável de todas as horas, desaparecerá na voragem das conquista da tecnologia? Creio que não, mas a resposta correta o tempo dirá.

domingo, 10 de abril de 2011

REMINISCÊNCIAS CARIOCAS


      Como é bom viajar para dentro de nós mesmos. Espanar o pó que encobre antigas recordações para visualizar meu Rio de Janeiro de antigamente, cidade maravilha em que vivi dos três aos sessenta anos. Como é bom resgatar aqueles momentos, aquelas faces, aqueles olhares, aqueles namoros, aqueles aromas que nos levam à infância e à mocidade.  É o passado invadindo o presente, reavivando lembranças e sentimentos quase extintos. Minha mãe com criança no colo e outra na barriga, passeio familiar aos domingos, eu e meu irmão Luiz Antonio com a roupa, corte de cabelo, suspensórios e  sapatos idênticos, sugerindo a clássica  e repetida pergunta dos passantes, “são gêmeos?”.
      Houve tempos difíceis, sofridos, tempos de dificuldades financeiras, família grande,   nove filhos, além de uma  que se tornou filha do coração. Mudanças de bairro acompanhando as transformações financeiras da família. Meu pai, modesto cirurgião dentista, numa certa fase da vida passa a acumular sua profissão com a de auditor fiscal da fazenda. Assim, das casas alugadas nos bairros do Grajaú, Rio Comprido, Engenho Novo e até no subúrbio de Madureira, passamos para os bairros de Botafogo, Fátima, e, finalmente, Leblon, em apartamento próprio.
    Rio de Janeiro dos anos cinqüenta e sessenta, anos azuis da adolescência e mocidade. Rio zona norte, Rio suburbano, o impacto da mudança para a Zona Sul, o futebol no início da era Maracanã com Zizinho no gramado. A moça bonita de Madureira. As viagens de trem Vera Cruz para Belo Horizonte num tempo em que  ninguém a chamava de BH. E os bondes verdes do meu Rio de antigamente, meus companheiros de tantas viagens e que ainda transportam minhas lembranças em sonhos.
     O centro do Rio sempre foi uma festa para os meus olhos de então. Vejo-me, office-boy, driblando e desviando-me com incrível destreza e rapidez dos automóveis na Avenida Rio Branco. De vez em quando um xingamento: “ Menino irresponsável!”. Mais tarde, funcionário público, ao findar do expediente, um chopp geladíssimo no Bar Brahma, na  falecida Galeria Cruzeiro.  Tempos heróicos de pouco dinheiro, mas de  muita alegria.
    O tempo passa muito mais rápido do que se pensa quando se é jovem. Ralei muito para tornar-me professor por vocação e  mais tarde, já na casa dos trinta, advogado e na dos quarenta, defensor público. Casei, vieram filhos, descasei, casei novamente com a linda moça de olhos verdes que conheci na estação do metrô do Largo da Carioca. Vieram filhas,netos e bisnetos. Aposentei, mudei para as montanhas do Sul de Minas.   Mas isto já é uma outra história. 

quinta-feira, 17 de março de 2011

UMA PITADA DE POESIA

Os poetas ainda existem

 A música que penetra em meus sentidos não é um sonho
pois traz a esperança de que neste mundo trágico e perplexo
ainda há lugar para o mágico e o poético
A criança ainda pode segurar a haste de uma flor
e tocá-la no ursinho de pelúcia branco
 À beira mar  a  lua ainda pinta o oceano 
com sua réstea de luz prateada
e, o que é mais importante,
os poetas ainda existem 

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

COMO NASCEU UM GRANDE CLUBE DE FUTEBOL

No início do século passado, principalmente na segunda década, o futebol no Brasil deixava de engatinhar para dar seus primeiros passos. A hoje imensa capital de Minas Gerais, em 1911 ainda era uma pequena cidade com, aproximadamente 35.000 habitantes, apesar de ostentar ruas e avenidas largas, fruto de um planejamento bem sucedido feito há alguns anos atrás, assim como, a novidade dos bondes elétricos e suntuosos prédios públicos, que já davam à cidade a aparência de ser bem maior do que efetivamente era. A febre esportiva contagiante, que atingia os meninos e adolescentes do Brasil inteiro era o futebol, ainda um esporte considerado de elite. O elemento negro, hoje predominante em várias práticas esportivas, em especial no futebol, mostrava-se estranho ao “esporte bretão”, como se costumava denominar o esporte. Assim, grande parte dos clubes que surgiram no Brasil ainda no alvorecer do século XX foram organizados por meninos e adolescentes de classe média ou alta, praticantes do novo esporte. e os modelos de inspiração, geralmente, vinham do Rio de Janeiro ou São Paulo.


Em 1911 o Governador de Minas, ou usando a nomenclatura da época, o Presidente de Minas Gerais era o ouro-finense Júlio Bueno Brandão, um político respeitado por seu espírito de liderança e, principalmente, por sua seriedade e honestidade no trato das coisas públicas. Sem dúvida, instigado por seus filhos e sobrinhos, ainda de calças curtas, todos praticantes entusiasmados do futebol, esporte que surgia célere e conquistava cada vez mais adeptos, resolve convidar o América Foot-ball Club do Rio de Janeiro para uma partida amistosa em Belo Horizonte. Foi a primeira vez que uma equipe carioca, na época uma das mais populares do Brasil, se deslocava até a emergente capital mineira para uma partida amistosa. E o jogo transcorreu numa tarde chuvosa de quinta-feira, exatamente no dia 16 de novembro de 1911, A equipe belorizontina que enfrentou os cariocas, o Yale Athletic Club, era formada por jovens estudantes e não fez feio. Perdia apenas por um a zero, quando, encerrado o primeiro tempo, o árbitro interrompeu o jogo em razão da tempestade que transformou o campo de jogo num verdadeiro lamaçal.
A viagem do América do Rio a Belo Horizonte, certamente, influenciou na escolha do nome de um dos mais tradicionais clubes de futebol do Brasil, o América mineiro, fundado em abril de 1912 por vários meninos praticantes do futebol e, entre eles, familiares do então governante de Minas, Júlio Bueno Brandão.
Em seu livro de memórias, “Na Vivência de Meu Tempo”, Affonso Silviano Brandão, que foi o primeiro presidente do América, relata que a idéia de fundar um clube de futebol surgiu numa conversa de meninos, quase todos alunos do tradicional Colégio Arnaldo de Belo Horizonte. Ele, por ser torcedor do América carioca, sugeriu o mesmo nome, ou seja, América Foot-ball Club, porém, como houve outras sugestões, ou seja, Riachuelo, Paissandu e Guarani, resolveram que o nome seria escolhido por sorteio, o que de fato ocorreu e o fator sorte indicou o nome do América. Vale destacar que Affonso Silviano era sobrinho do então governante Júlio Bueno Brandão, bem como, entre os fundadores, havia um de seus filhos, Francisco Bueno Brandão e um outro sobrinho, José Megale, também nascidos em Ouro Fino e estudantes em Belo Horizonte. O interessante é que Affonso Silviano foi escolhido presidente por ser o mais velho entre os fundadores, e, no entanto, tinha apenas quatorze anos de idade.
Assim, uma reunião de meninos, colegas de escola que, a primeira vista poderia parecer despretensiosa, daria origem a um dos grandes e tradicionais clubes de futebol de Minas Gerais e um dos poucos no Brasil que pode se orgulhar de ter sido dez vezes campeão em anos sucessivos, pois sagrou-se campeão mineiro nos anos compreendidos entre 1916 e 1925. Mas isto já uma outra história.

domingo, 12 de setembro de 2010

Reminiscências quase pernambucanas

Nada acontece por acaso. Hoje,tenho a convicção de que a Força Superior que guia nosso destino é quem decide os rumo de nossas vidas. Nós somos o rebanho e Ele o pastor. Assim, não foi por acaso que meu pai, Amaro Silvestre Pereira de Araujo, nordestino de boa cepa, cirurgião dentista dos melhores, um dia bateu os costados em Campinas. Na verdade, foi direcionado por Ele justamente para ser vizinho de meu avô materno, doutor Antonio Pimentel Junior, culto advogado, assistindo na bela e progressista Princesa do Oeste dos anos trinta. Foi lá que Deus semeou minha familia.
De Campinas para Ouro Fino, terra natal da bela e meiga Zuleika, minha mãe, foi um pulo, mas salpicado de dificuldades financeiras para o jovem odontólogo. Chegou o primogênito, Luiz Antonio, e pouco tempo depois minha mãe já carregava no ventre este modesto escriba. Daí veio a idéia da mudança para Recife, cidade grande, melhores oportunidades profissionais, ajuda financeira de meu avô paterno, projetos que entusiasmaram meu pai, inclusive a possibilidade de seu segundo filho ser também pernambucano como ele. Mas, a bem da verdade, cumpre esclarecer que esse entusiasmo não foi compartilhado por minha mãe.
Acostumada ao aconchego da proximidade familiar, principalmente de minha avó, Maria Ignácia, poucos meses após a chegada à bela capital nordestina, minha mãe já implorava pelo retorno, principalmente porque não queria ter filho longe do apoio maternal. Daí, minha provável naturalidade pernambucana começou a balançar, até que se desvaneceu totalmente, pois vencido pelos apelos de sua jovem esposa, meu pai decidiu pelo retorno. De fato, com a previsão do parto para novembro, no início de outubro de 1934, minha família retornava por mar com destino ao Rio de Janeiro, trampolim para Ouro Fino, cidade para onde meus avós maternos tinham se mudado.
Naquele tempo, viajar não era um ato tão simples como na atualidade. Os deslocamentos entre o norte ou nordeste para o sul e vice-versa, eram feitos nos navios das companhias Navegação Cossteira e Loyde Brasileiro, e a viagem de Recife para o Rio de Janeiro era feita em cinco dias, pelo menos. Avião era um privilégio das pessoas corajosas e abastadas. Já do Rio para Ouro Fino havia o acréscimo de mais dois dias, nos maria-fumaças tão comuns naqueles tempos românticos.
As agruras da viagem devem ter mexido bastante com o ventre de minha mãe e apressado o parto, pois mal chegamos em Ouro Fino, eu já me debatia no limiar dessa longa trajetória extra uterina em que me encontro até os dias atuais. E não houve tempo nem de chamar a parteira e meu pai, coitado, acostumado a extrair dentes, foi forçado pelas circunstâncias a extrair um pequenino ser do ventre de sua querida esposa.
E foi assim, por uma fração de alguns dias, que deixei de ser pernambucano. Mas Recife tornou-se uma referência em minha vida e, vez por outra, mato as saudades de minha quase terra natal.

terça-feira, 8 de junho de 2010

ÁGUAS VIRTUOSAS DE LAMBARI

Recentemente estive com minha esposa na linda estância hidromineral de Lambari. Cidade pequena cercada de montanhas verdes que ainda ostenta resquícios de um passado de fausto representado, principalmente, pelo belo e imponente prédio que seria um cassino, edificado às margens do Lago Guanabara, construídos graças ao espírito incrivelmente empreendedor de seu primeiro prefeito, o engenheiro Américo Werneck. Nomeado em 1909 pelo então presidente de Minas Wenceslau Braz para governar o recém emancipado município de Águas Virtuosas, Werneck , que já fora prefeito de Belo Horizonte, ambicionava transformá-lo numa versão brasileira da então famosa estância hidromineral, Águas de Vick, localizada na França, recebendo do governo mineiro imenso suporte financeiro para o ousado empreendimento.
Além do lago onde foi colocado até uma gôndola importada de Veneza, o lindo e imponente prédio onde Werneck planejava instalar um cassino foi construído com requintes e, evidentemente, gastos até então inimagináveis para uma pequena cidade do interior de Minas. Para se ter uma idéia da grandiosidade do empreendimento, basta esclarecer que todos os materiais de construção foram importados da Europa e da Ásia. Assim, a madeira era o famoso pinho de Riga, vindo da Rússia; as telhas eram francesas; os azulejos e peças sanitárias vieram de Portugal e Inglaterra e, até mesmo os tijolos, cimento pedras, pisos e forros provieram de vários países asiáticos.
A inauguração do cassino, em 1912, correspondeu a uma festa das Mil e Uma Noite, com champanhe e vinhos franceses jorrando à vontade, bufê caríssimo, casacas, cartolas e vestidos longos circulando pelos salões ricamente ornamentados, graças à presença de centenas de ilustres convidados vindos, principalmente, do Rio de Janeiro, sem contar as do Presidente da República, Hermes da Fonseca e do Presidente de Minas Gerais, Júlio Bueno Brandão. Do lado de fora, a população interiorana da pequena cidade assistia embasbacada a movimentação inusitada. Américo Werneck, o anfitrião, circulava orgulhoso com sua criação, ainda mais quando os fogos de artifícios, a gôndola ricamente ornamentada e o belíssimo farol arrancavam gritos de admiração do público.
Talvez o único convidado que não acompanhou a euforia reinante no ambiente foi o governador de Minas. Retornando a Belo Horizonte, o austero Júlio Bueno Brandão chamou ao palácio o advogado Antonio Pimentel Júnior e, segundo a memória familiar, visivelmente preocupado, teria dito as seguintes palavras.: “Vou ter que demitir o Werneck da Prefeitura de Águas Virtuosas, pois nesse ritmo ele não vai quebrar apenas seu município, mas Minas Gerais, e até mesmo o Brasil” . E de fato, demitiu Américo Werneck nomeando para seu lugar o Doutor Pimentel com a recomendação de economizar o máximo e enxugar as finanças do município.
Em Lambari, eu e minha esposa, percorremos a pé as ruas do centro da cidade e ao lado direito de sua imponente igreja matriz, vejo a placa indicativa do nome de uma pequena rua de ladeira íngreme, “Rua Doutor Antonio Pimentel Júnior”. Aproveitei para tirar uma foto junto à placa, esclarecendo aos leitores que o homenageado com o nome da rua foi meu avô materno, o prefeito que substituiu Américo Werneck e que governou a cidade durante vários anos na segunda década do século passado. Meus contatos com ele distam há mais de sessenta anos, mas guardo nos escaninhos de minhas recordações, seu olhar de bondade, sua paciência com os netos e até mesmo resquícios de sua voz.
Bem, para terminar essas digressões, o tal cassino nunca chegou a funcionar e embora tenha um repositório riquíssimo de águas minerais, o município de Águas Virtuosas nunca chegou a ser considerada uma Vick sul-americana, tendo mudado seu nome para Lambari, vocábulo que significa peixe pequeno, em 1930.
Américo Werneck, o homem que sonhou alto, deixou para a posteridade uma cidade belíssima, embora mal cuidada atualmente, e sua marca de visionário ousado. Mas o que seria do mundo sem a ousadia dos visionários?