À medida que o passar do tempo vai deixando suas marcas em nosso corpo, vez por outra, procuramos resgatar dos porões da memória antigas recordações dos verdes anos da mocidade . Rostos , vozes, perfumes, músicas e, até mesmo, alguns gestos quedam-se imobilizados em nossa mente como um painel de exposição. De repente, transporto-me para Belo Horizonte dos anos dourados, cidade boêmia, bucólica , dos bondes amarelos e das lindas moças que faziam o “footing” na Praça da Liberdade .
A casa da minha avó, refúgio de minhas temporadas mineiras, ficava numa então pacata rua no bairro de Santo Antonio. Larga e bem asfaltada , num tempo em que os automóveis conviviam em plena harmonia com o futebol, os patins e as bicicletas , a Fernandes Tourinho tinha um permanente aspecto recreativo . Foi lá que meu coração adolescente recebeu a primeira flechada de um Cupido de plantão quando, numa certa tarde, vi uma jovem sorridente que vestia azul e pilotava uma bicicleta Monark também azul. O primeiro amor, ou a primeira paixão, como quiserem, geralmente não dá em nada sério, mas sempre bate fundo num coração inexperiente e durante muito tempo provoca lágrimas e noites mal dormidas. Quem não as teve ?
E os meus primeiros contatos com as noites de boemia (ou boêmia como preferem os puristas) , também tiveram como palco a Belo Horizonte dos anos cinqüenta . No Montanhês, a magnífica orquestra do Maestro Castilho, afinadíssima, empolgava os “pés-de-valsas” e eu , timidamente, também arriscava alguns passos mais ousados. Em outro cabaré, um cantor argentino, sem dúvida completamente desconhecido das plagas portenhas, mas conhecidíssimo na Rua Guaicurus e adjacências, de chapéu, cachecol , cigarro sempre pendente no canto da boca, entoava tangos de Gardel e alguns que afirmava ser de sua lavra . Muitas mulheres da noite chegavam a chorar de emoção ao vê-lo cantar .
E os rapazes de minha turma ? Seus rostos , expressões, vozes, olhares, gozações, gestos, acompanham-me pela vida a fora. Faziam parte, meu primo Sérgio Pimentel, Pedro Senna Horta , Helio Moraes, Guido Rocha, Moacyr Miranda (Mãozinha) , Serginho Boa Pinta, Oswaldo Girão, Renato Figueiredo (Javali), Fernando Ramos, Guido Rocha e mais alguns que , esporadicamente, também compareciam ao nosso ponto de reunião dos sábados, o antigo Bar Caçúla, na Rua da Bahia, tais como, Achilles Reis, Renato Girão, Hélio Barreto, José Bráulio e meu irmão Luiz Antonio. Como decorrência lógica do transcurso de mais de meio século, alguns desses rapazes já não nos acompanham nesse vale de lágrimas, emoções e sorrisos em que ainda vivemos.
O hábito de falar de coisas antigas indica que estamos ficando velhos. No entanto, eu assumo plenamente esta minha “melhor idade” e ainda pretendo detalhar alguns aspectos dessas reminiscências, principalmente no que diz respeito a minha “famosa” turma . Recordar também é viver.
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