domingo, 12 de setembro de 2010

REMINISCÊNCIAS QUASE PERNAMBUCANAS

     Nada acontece por acaso. Hoje,tenho a convicção de que a Força Superior que guia nosso destino é quem decide os rumo de nossas vidas. Nós somos o rebanho e Ele o pastor. Assim, não foi por acaso que meu pai, Amaro Silvestre Pereira de Araujo, nordestino de boa cepa, cirurgião dentista dos melhores, um dia bateu os costados em Campinas. Na verdade, foi direcionado por Ele justamente para ser vizinho de meu avô materno, doutor Antonio Pimentel Junior, culto advogado, assistindo na bela e progressista Princesa do Oeste dos anos trinta. Foi lá que Deus semeou minha familia.
     De Campinas para Ouro Fino, terra natal da bela e meiga Zuleika, minha mãe, foi um pulo, mas salpicado de dificuldades financeiras para o jovem odontólogo. Chegou o primogênito, Luiz Antonio, e pouco tempo depois minha mãe já carregava no ventre este modesto escriba. Daí veio a idéia da mudança para Recife, cidade grande, melhores oportunidades profissionais, ajuda financeira de meu avô paterno, projetos que entusiasmaram meu pai, inclusive a possibilidade de seu segundo filho ser também pernambucano como ele. Mas, a bem da verdade, cumpre esclarecer que esse entusiasmo não foi compartilhado por minha mãe.
     Acostumada ao aconchego da proximidade familiar, principalmente de minha avó, Maria Ignácia, poucos meses após a chegada à bela capital nordestina, minha mãe já implorava pelo retorno, principalmente porque não queria ter filho longe do apoio maternal. Daí, minha provável naturalidade pernambucana começou a balançar, até que se desvaneceu totalmente, pois vencido pelos apelos de sua jovem esposa, meu pai decidiu pelo retorno. De fato, com a previsão do parto para novembro, no início de outubro de 1934, minha família retornava por mar com destino ao Rio de Janeiro, trampolim para Ouro Fino, cidade para onde meus avós maternos tinham se mudado.
     Naquele tempo, viajar não era um ato tão simples como na atualidade. Os deslocamentos entre o norte ou nordeste para o sul e vice-versa, eram feitos nos navios das companhias Navegação Cossteira e Loyde Brasileiro, e a viagem de Recife para o Rio de Janeiro era feita em cinco dias, pelo menos. Avião era um privilégio das pessoas corajosas e abastadas. Já do Rio para Ouro Fino havia o acréscimo de mais dois dias, nos maria-fumaças tão comuns naqueles tempos românticos.
      As agruras da viagem devem ter mexido bastante com o ventre de minha mãe e apressado o parto, pois mal chegamos em Ouro Fino, eu já me debatia no limiar dessa longa trajetória extra uterina em que me encontro até os dias atuais. E não houve tempo nem de chamar a parteira e meu pai, coitado, acostumado a extrair dentes, foi forçado pelas circunstâncias a extrair um pequenino ser do ventre de sua querida esposa.
E foi assim, por uma fração de alguns dias, que deixei de ser pernambucano. Mas Recife tornou-se uma referência em minha vida e, vez por outra, mato as saudades de minha quase terra natal.