Como é bom viajar para dentro de nós mesmos. Espanar o pó que encobre antigas recordações para visualizar meu Rio de Janeiro de antigamente, cidade maravilha em que vivi dos três aos sessenta anos. Como é bom resgatar aqueles momentos, aquelas faces, aqueles olhares, aqueles namoros, aqueles aromas que nos levam à infância e à mocidade. É o passado invadindo o presente, reavivando lembranças e sentimentos quase extintos. Minha mãe com criança no colo e outra na barriga, passeio familiar aos domingos, eu e meu irmão Luiz Antonio com a roupa, corte de cabelo, suspensórios e sapatos idênticos, sugerindo a clássica e repetida pergunta dos passantes, “são gêmeos?”.
Houve tempos difíceis, sofridos, tempos de dificuldades financeiras, família grande, nove filhos, além de uma que se tornou filha do coração. Mudanças de bairro acompanhando as transformações financeiras da família. Meu pai, modesto cirurgião dentista, numa certa fase da vida passa a acumular sua profissão com a de auditor fiscal da fazenda. Assim, das casas alugadas nos bairros do Grajaú, Rio Comprido, Engenho Novo e até no subúrbio de Madureira, passamos para os bairros de Botafogo, Fátima, e, finalmente, Leblon, em apartamento próprio.
Rio de Janeiro dos anos cinqüenta e sessenta, anos azuis da adolescência e mocidade. Rio zona norte, Rio suburbano, o impacto da mudança para a Zona Sul, o futebol no início da era Maracanã com Zizinho no gramado. A moça bonita de Madureira. As viagens de trem Vera Cruz para Belo Horizonte num tempo em que ninguém a chamava de BH. E os bondes verdes do meu Rio de antigamente, meus companheiros de tantas viagens e que ainda transportam minhas lembranças em sonhos.
O centro do Rio sempre foi uma festa para os meus olhos de então. Vejo-me, office-boy, driblando e desviando-me com incrível destreza e rapidez dos automóveis na Avenida Rio Branco. De vez em quando um xingamento: “ Menino irresponsável!”. Mais tarde, funcionário público, ao findar do expediente, um chopp geladíssimo no Bar Brahma, na falecida Galeria Cruzeiro. Tempos heróicos de pouco dinheiro, mas de muita alegria.
O tempo passa muito mais rápido do que se pensa quando se é jovem. Ralei muito para tornar-me professor por vocação e mais tarde, já na casa dos trinta, advogado e na dos quarenta, defensor público. Casei, vieram filhos, descasei, casei novamente com a linda moça de olhos verdes que conheci na estação do metrô do Largo da Carioca. Vieram filhas,netos e bisnetos. Aposentei, mudei para as montanhas do Sul de Minas. Mas isto já é uma outra história.
Um comentário:
O rio de janeiro nao eh mais o mesmo.
Gostei do blog, continue escrevendo!
estou desenvolvendo um blog sobre o rio de janeiro, veja em
www.rioparainiciantes.wordpress.com
luis antonio
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